segunda-feira

silêncio

O silêncio afasta-nos dos outros mas aproxima-nos de nós mesmos. Mergulho no silêncio, deito-me nele e escuto atentamente. Nele ecoam as minhas memórias: as boas, as más, as que quero esquecer, as que quero relembrar para sempre. Nesse silêncio moram as ilusões que impus a mim mesma, nele moram também as verdades que nunca contei a ninguém. Era tão fácil colar um sorriso com fita-cola à cara, rir de piadas que não me davam vontade de rir e esconder-me nessa máscara.
Um dia, guardei-a na gaveta e saí para a rua. Não sorri, não me apetecia. Os sorrisos também se gastam. Naquele dia, o meu gastou-se. Uma lágrima escorregou pela cara enquanto me via reflectida na vitrine de uma loja qualquer. Senti-a quente na minha cara cor de mármore. Não tinha posto base nem batom, o cabelo estava mais desgrenhado do que o habitual. Não queria olhar para o espelho. Não queria. Doía. Tinha saído de casa à pressa. Era cedo. Muito cedo.
Entrei na igreja, sentei-me e senti pingos a caírem dos olhos em catadupa.
Senti-me só. Prometi que ia mudar, prometi que me ia salvar de mim mesma. Promessas vãs.
Acabei por ir buscar a máscara à gaveta.
Passaram-se dias, dias que se tornaram meses, meses que se tornaram anos.
Habituei-me a lutar diariamente com o espelho.
Não o parti porque dizem que dá azar. Não, não sou supersticiosa mas não quis nem quero arriscar.

Um comentário:

Enfant Terrible disse...

quis não olhar para o espelho porque me doía, quis partilho também. até que desisti, quando o fazia ele voltava, mais forte que eu. lancei-lhe um sorriso maior, e foi mais fácil. é assim que tenho lutado. sorrindo estupidamente mesmo por cima das lágrimas... talvez, talvez seja a solução.

gostei tanto. revejo-me como um espelho=)