Apesar do lugar-comum do nome da protagonista, William Styron fez de Escolhas de Sofia um romance ímpar sobre o trauma de uma sobrevivente de Auschwitz, Sofia, uma polaca católica, e o génio conturbado do seu amante Nathan Landau, um bioquímico judeu sedento de grandiosidade. A católica oprimida e o judeu ambicioso, parece um cliché. E tendo em conta a realidade histórica da intriga, faria mais sentido que Nathan fosse o sobrevivente do campo de concentração. Mas esta obra é um conjunto de contradições irónicas.
Sofia fora deportada para Auschwitz por ter comprado carne proibida para a sua adoentada mãe. Na altura a melhor carne destinava-se apenas aos alemães - a Polónia estava ocupada. A religião "correcta" na altura, não a protegeu. Viveu 20 meses em Auschwitz, sobrevivendo apesar do sem-número de doenças de que foi vítima. Instalou-se em Brooklyn onde decidiu recalcar o inferno do campo e recomeçar a vida como se nada tivesse acontecido. No entanto, continuou anémica até conhecer Nathan. Desmaia numa biblioteca e o judeu, alguns anos mais novo que Sofia, decide cuidar dela. Ironicamente, Sofia não pereceu no campo de concentração judia, mas acabou por ter sido salva da doença por um judeu. Durante a sua relação com Nathan, nunca lhe fala da sua vivência em Auschwitz, e este, um inflamado intelectual com a raiva judia na flor da pele, dirige-lhe todo o nervo quando não é bem sucedido no trabalho, atirando-lhe a injustiça de não ter morrido como tantos judeus.
A estória é relatada por Stingo, jovem escritor fascinado pelos excêntricos vizinhos de quarto da pensão em que se refugiou para se dedicar ao seu romance. Nathan e Sofia encontram em Stingo um mediador, confessam-lhe tudo o que não conseguem dizer um ao outro.
O início da obra dedica-se a Stingo, que será muito provavelmente um alter-ego do autor. Torna-se maçuda a longa descrição da vida de Stingo, afinal pouco importante para o romance. Mas é interessante também a maneira como Styron confunde o leitor, que não sabe se a intriga incidirá sobre Nathan/Sofia ou Stingo. À medida que o romance se desenvolve, parece tornar-se um diário entre a conturbada época de frustração criativa de Stingo, e o que o distraía da eminente solidão: o casal vizinho. A sua vivência a 3 agita a obra, que toma uma velocidade vertiginosa, tanto que é impossível largar o livro até chegar ao fim.
E assim vibramos entre a fúria do amor, o existencialismo de Styron, e um relato fidedigno do Holocausto, pela voz de Sofia.
Entre tantas e tantas obras que já se escreveram sobre o tema, Styron faz a diferença pelo realismo, pela isenção e por não cair no drama.
segunda-feira
Assinar:
Postar comentários (Atom)
3 comentários:
tenho de ler =) agora fiquei curiosa. Nunca li nada deste autor. Já anotei " as escolhas de sofia" para ler em breve =)
temos aqui uma critica literária com futuro =)
:D por acaso crítica de arte está nos meus planos, mas acho que vou é pró desemprego lol
Postar um comentário