terça-feira

Proibido

Não sei largar as tuas palavras esta noite. Tudo o que partilhamos, o que ninguém gosta e nós, só nós, gostamos. Enches-me o quarto com a tua voz e olhar sábio, forte, verdadeiro. Pior é o monte de barreiras que sempre me separa de tudo e tu não és excepção. Não tenho pernas para isso. Sempre o melhor, o fruto proibido.

Sublime

mudança

Arrumo as malas e preparo-me para a mudança, sim, "A" mudança. Respiro fundo. Está tudo planeado, vou entrar com o pé direito na esperança de ter sorte desta vez. Os rostos serão desconhecidos mas pouco me importa. Sou uma amadora na matéria : "Controle manual das aberturas do diafragma"? Conceitos dúbios para quem esteve sempre embrenhada na área de letras.
O material parece demasiado sofisticado para a minha inexperiência. Uma coisa é certa, vou dar o meu melhor para captar cada sorriso inesperado, cada pôr-do-sol que vou apreciar da minha janela, cada instante perfeito que passeia pelas ruas e ruelas de Lisboa.
Cortei com o passado, deitei fora tudo o que me pesava na alma, esqueci-me de quem se esqueceu de mim.
Agora só há um caminho : começar de novo ao lado de quem sempre esteve presente na minha vida. Aprendi com o tempo a dar valor a quem está connosco independentemente dos dias serem chuvosos ou radiantes.

segunda-feira

As Escolhas de Sofia, William Styron

Apesar do lugar-comum do nome da protagonista, William Styron fez de Escolhas de Sofia um romance ímpar sobre o trauma de uma sobrevivente de Auschwitz, Sofia, uma polaca católica, e o génio conturbado do seu amante Nathan Landau, um bioquímico judeu sedento de grandiosidade. A católica oprimida e o judeu ambicioso, parece um cliché. E tendo em conta a realidade histórica da intriga, faria mais sentido que Nathan fosse o sobrevivente do campo de concentração. Mas esta obra é um conjunto de contradições irónicas.
Sofia fora deportada para Auschwitz por ter comprado carne proibida para a sua adoentada mãe. Na altura a melhor carne destinava-se apenas aos alemães - a Polónia estava ocupada. A religião "correcta" na altura, não a protegeu. Viveu 20 meses em Auschwitz, sobrevivendo apesar do sem-número de doenças de que foi vítima. Instalou-se em Brooklyn onde decidiu recalcar o inferno do campo e recomeçar a vida como se nada tivesse acontecido. No entanto, continuou anémica até conhecer Nathan. Desmaia numa biblioteca e o judeu, alguns anos mais novo que Sofia, decide cuidar dela. Ironicamente, Sofia não pereceu no campo de concentração judia, mas acabou por ter sido salva da doença por um judeu. Durante a sua relação com Nathan, nunca lhe fala da sua vivência em Auschwitz, e este, um inflamado intelectual com a raiva judia na flor da pele, dirige-lhe todo o nervo quando não é bem sucedido no trabalho, atirando-lhe a injustiça de não ter morrido como tantos judeus.
A estória é relatada por Stingo, jovem escritor fascinado pelos excêntricos vizinhos de quarto da pensão em que se refugiou para se dedicar ao seu romance. Nathan e Sofia encontram em Stingo um mediador, confessam-lhe tudo o que não conseguem dizer um ao outro.
O início da obra dedica-se a Stingo, que será muito provavelmente um alter-ego do autor. Torna-se maçuda a longa descrição da vida de Stingo, afinal pouco importante para o romance. Mas é interessante também a maneira como Styron confunde o leitor, que não sabe se a intriga incidirá sobre Nathan/Sofia ou Stingo. À medida que o romance se desenvolve, parece tornar-se um diário entre a conturbada época de frustração criativa de Stingo, e o que o distraía da eminente solidão: o casal vizinho. A sua vivência a 3 agita a obra, que toma uma velocidade vertiginosa, tanto que é impossível largar o livro até chegar ao fim.
E assim vibramos entre a fúria do amor, o existencialismo de Styron, e um relato fidedigno do Holocausto, pela voz de Sofia.
Entre tantas e tantas obras que já se escreveram sobre o tema, Styron faz a diferença pelo realismo, pela isenção e por não cair no drama.

quinta-feira

"Vive, dança, rosa branca,
Não percas tempo a tentar ser feliz
Toma bem conta do que eu nunca fiz
Quando fores grande não queiras crescer
(...)
Embala o mundo ao som dos teus passos
Deixa o teu lar doce lar em estilhaços"

Jorge Palma

terça-feira

Eternamente Tu

Espero-te como a D. Sebastião. Espero-te sem olhar para o relógio, sem hora marcada, deixo os dias, meses e anos esquecerem-se de te trazer sem te esquecer, sem deixar de te lembrar com um sorriso e um arrepio, sinto o teu rosto como se ontem o tivesse beijado.
Esperar-te faz parte de mim, de cada segundo em que nada se agita senão a doce lembrança do passado, onde tu continuas a viver. Sei que não virás mas no meu pequeno mundo imaginário prefiro viver-te a não ter mais nada. Pequenas coincidências te trazem pela fina barreira entre a ilusão e o vazio, como acordar depois de sonhar contigo e receber no mesmo momento um pequeno bom dia teu, pelo telemóvel - essencial objecto em que escrevemos o nosso minuto, que nos une e ao mesmo tempo frustra por dar tanto mas não poder ser mais. Palavras que surgem da tua mão sem lhe poder tocar. Desejos da tua boca que não posso sentir.
Quando te sonho é como se te tivesse nesse perfeito mundo paralelo entre a almofada e o infinito nada da noite. E em silêncio te namoro, como um segredo que nem tu sabes, re-estreia de um filme antigo pelas mesmas deixas que sei de cor, um amor sem tempo, um romance de pedaços rasgados de outra estória, a mesma, reescrita por mim.

segunda-feira

silêncio

O silêncio afasta-nos dos outros mas aproxima-nos de nós mesmos. Mergulho no silêncio, deito-me nele e escuto atentamente. Nele ecoam as minhas memórias: as boas, as más, as que quero esquecer, as que quero relembrar para sempre. Nesse silêncio moram as ilusões que impus a mim mesma, nele moram também as verdades que nunca contei a ninguém. Era tão fácil colar um sorriso com fita-cola à cara, rir de piadas que não me davam vontade de rir e esconder-me nessa máscara.
Um dia, guardei-a na gaveta e saí para a rua. Não sorri, não me apetecia. Os sorrisos também se gastam. Naquele dia, o meu gastou-se. Uma lágrima escorregou pela cara enquanto me via reflectida na vitrine de uma loja qualquer. Senti-a quente na minha cara cor de mármore. Não tinha posto base nem batom, o cabelo estava mais desgrenhado do que o habitual. Não queria olhar para o espelho. Não queria. Doía. Tinha saído de casa à pressa. Era cedo. Muito cedo.
Entrei na igreja, sentei-me e senti pingos a caírem dos olhos em catadupa.
Senti-me só. Prometi que ia mudar, prometi que me ia salvar de mim mesma. Promessas vãs.
Acabei por ir buscar a máscara à gaveta.
Passaram-se dias, dias que se tornaram meses, meses que se tornaram anos.
Habituei-me a lutar diariamente com o espelho.
Não o parti porque dizem que dá azar. Não, não sou supersticiosa mas não quis nem quero arriscar.

sexta-feira

ser-para-e-por-mim

O sol aquece os vidros do carro. Abro a janela e sinto o vento bater-me no cabelo. Sabe bem, sabe a liberdade. Penso em tudo e em nada concretamente. Sinto-me aliviada por ter finalmente fechado o livro que andava a ler. Estava farta do seu enredo rotineiro mas custava-me tirá-lo da mesa de cabeceira. Tinha medo, medo de me desfazer dele como de muitas coisas na minha existência a que disse adeus.
Quando era pequenina, detestava a rotina, ainda não tenho uma relação estreita com ela mas aprendi a renová-la. Há tantas pessoas que ainda não conheci, tantos sonhos que ainda não sonhei, tantas desilusões e alegrias por viver. Há ainda tanta coisa que não sei a meu respeito porque aprendi há pouco tempo a escutar-me verdadeiramente sem interferência dos outros, os figurantes da minha vida. Cada um de nós tem o papel principal nas nossas vidas. Eu vesti-me de bailarina no camarim, sim eu gostava de ser bailarina, saí para o palco e dancei até me doerem os pés. Não havia público. Que importa? Somos para e por nós.

quinta-feira

Imortal

Na altura pensávamos ser imortais, eu e tu. Não havia contador que medisse a nossa velocidade, conduzias a dançar, a música ao máximo ensurdecendo o mundo, mãos fora do volante, guinando ao ritmo da melodia. Eu ria e cantava e gritava torpe de ti em mim, em nós. De tudo aquilo. Pensava, se isto não é perfeito, o que é? O perigo, a adrenalina, a cegueira do amor. A mais gritante loucura. A gargalhada de estar contigo e a plenitude de te amar, às quatro e meia da manhã por um escuro caminho de terra longe como nem nós sabíamos da estrada, previsto caminho da vida. E nós nunca gostámos da rotina. Bebíamos da vida em desejo e momentos arrepiantes de emoção, sem horas, meu amor, porque o tempo éramos nós. Parece que agora temos de andar pela estrada, a idade dá trabalho. Nunca soube ir ter àquele caminho de terra, eras sempre tu que me levavas. É melhor esquecê-lo. "Nunca mais iremos voltar, porque nunca será tão bom".

terça-feira

dancer in the dark

"They say it's the last song. They don't know us, you see. It's only the last song if we let it be."

Quantos de nós ousaram dançar no escuro? Rir nas situações mais amargas da vida e lutar, desafiar os limites de nós mesmos, conquistar terreno ao destino para salvar alguém que amamos? Alienarmo-nos num sonho musical para suportar a realidade...Esse sonho pode ser interminável se quisermos, tudo em prol da sanidade emocional, insana aos olhos dos outros, talvez mais cegos do que os cegos que, como Selma (björk) vêem com os olhos da alma e do coração.
Num musical tudo é tão perfeito na respiração das coreografias soltas e na beleza da música sedutora dos ouvidos menos treinados...Mas o musical acaba, o sonho americano não é eterno...
As actrizes despem os fatos de plumas..a orquestra pára de tocar, desce o pano com a última canção, aquela que temos a certeza que será a derradeira e resta-nos o silêncio novamente, o olhar atento do ecrã preto, o choque connosco, com a vida que não é cor-de-rosa nem escura, é de muitas cores.
Atordoados, ficamos sós...mas a canção ainda não acabou. Ela continua a cantar dentro das nossas entranhas se a deixarmos fluir. A capacidade da canção se prolongar é ilimitada porque o sonho não tem portas, tem muitas janelas das quais podemos contemplar inúmeras perspectivas, como uma câmara fotográfica, mas só uma perspectiva nos interessa congelar : é aquela, aquela em que tudo atinge um equilíbrio irrealmente desiquilibrado, aquela em que nós saímos sempre vencedores, criaturas triunfantes das nossas vidas porque nós queremos acreditar que as controlamos. Queremos ser o maestro a coordenar a última canção com as nossas mãos lassas e suadas.

segunda-feira

capuchinho vermelho da modernidade

Quando vi "Hard Candy", de David Slade, pela primeira vez não estava preparada e penso que essa é a melhor forma de o ver porque assim deixamos que a película nos rapte por completo. No início do filme, temi por Hayley Stark (Ellen Page), a menina de 14 anos que parecia tão frágil e deslumbrada por Jeff Kohlver (Patrick Wilson), um pedófilo que, através da internet, seduz a jovem que acaba por decidir encontrar-se com ele para se conhecerem pessoalmente.
O encontro acontece, Hayley parece fascinada com Jeff apesar das diferenças de idade. Subitamente, este convida-a para ir a sua casa e a reviravolta acontece. O capuchinho vermelho não era tão ingénuo como parecia e o lobo mau era menos astucioso do que julgara.
Hayley sabia que não havia inocência alguma na perversão de Jeff e decide faze-lo provar do seu próprio veneno. Agora é ele que vai pagar com o seu sangue por todas as adolescentes molestadas que fez sofrer.
A inversão de papéis é repentina e rotativa, permanecendo, desta forma, o medo de que a jovem se deixe apanhar no jogo de sedução paternalista do seu agressor. Por vezes, ficamos confusos quando a criança fala como adulta e o adulto se justifica como criança. O sadismo inerente ao filme, abala a nossa moralidade e afasta-nos do maniqueísmo. O que é certo? O que é errado? O que devemos sentir? Será errado oscilar numa dualidade de sentimentos?
O filme faz perguntas, perguntas sobre o nosso carácter mas não dá respostas. Aqui reside o seu maior trunfo.

ausência

Tenho saudade de tudo, até do que não me lembro sinto saudade. Tenho saudades de me ter despedido de quem não despedi. Ou será que despedi? Lembro-me de sentir os meus sentidos turvarem-se na noite à medida que eu me mentalizava da minha futura ausência, um afastamento necessário para mim.
Muito mudou desde então. Eu mudei. Será que também mudaste? Eu mudei mas continuo a mesma.
Regressar parece mais difícil à medida que o tempo escorre por entre os dedos. É nestas alturas que me apercebo do valor imensurável da amizade e do que ela significa para mim. Partilhar com alguém que estimamos um momento de silêncio é um acto de comunhão. Não precisamos de palavras que se metam no meio do caminho. A linguagem da amizade é a cumplicidade. A aptidão para ler nos olhos de quem gostamos o que lhes vai na mente.
Tenho a certeza que leste no meu olhar o que senti naquele momento e isso basta para te ter sempre presente em mim independentemente da distância. Não há barreiras, há contratempos, não há despedidas, há até jás.

cegueira colectiva

Porque será que, por vezes, tentamos ser validados pelos outros sem nos validarmos primeiro? A casca da maçã mais bonita pode esconder um miolo azedo. O livro de capa poeirenta pode respirar palavras mais sábias que o seu vizinho de capa reluzente. "As aparências iludem"? Ou somos nós que iludimos as aparências, sedentos de fazermos parte delas também?
Porque vemos nos outros o que queremos que eles sejam?
Porque não queremos ver o que eles são?
Temos medo deles?
Ou de nós próprios?
Se todos tivessemos um livro com os segredos da alma, o que fariamos?
Escondiamo-lo apavorados com a possibilidade de sermos rejeitados?
Mostrar o livro implicaria coragem da nossa parte e a maioria de nós é tão cobarde...
Por outro lado, será que o iamos ler? Não sei.
Vivemos numa sociedade com medo de olhar para dentro, uma sociedade intoxicada com o véu de maya, carapaça tecida pela perda da ingenuidade das crianças que fomos.
Talvez os ingénuos sejamos nós...e as crianças, elas sim, as portadoras da irracionalidade necessária para aceitar a vida como ela é.

domingo

it's all so quiet...

Acordo a meio da noite. Tenho a casa por minha conta. Acendo a luz e fumo um cigarro na varanda, pensando como é bom estar fora da confusão de Lisboa e poder ouvir os grilos a cantar. Às vezes, ando tão absorvida naquele turbilhão que me esqueço de como é bom ter alguma tranquilidade. Por norma, sou impaciente mas quando realmente me descontraio, penso que precisamos de muito menos do que imaginamos para ser felizes.
Talvez a sociedade nos tenha imposto um padrão de insatisfação e confesso que faço parte da massa insatisfeita. Sou uma insatisfeita nata, mea culpa. Quero sempre voar mais alto, ter mais sonhos, coisas que construo na minha mente diletante que arquitecta projectos à mesma velocidade que os destrói. Esse grau de insatisfação que me é inato leva-me a achar-me sempre aquém do que quero. Só quando olho para trás é que me apercebo de que afinal tinha o que queria.